Amor e uma cabana com livraria

Paixão. Emoção intensa, prazerosa, fugaz. 

Amor. Sentimento multifacetado, complexo, altruísta, duradouro.

É um facto que aplicamos estes dois conceitos indiscriminadamente, mas a sua diferença não está apenas no léxico ou na semântica. É vívida nos sentidos. Quando nutrimos paixão por algo ou alguém, sentimos a necessidade biológica de nos envolvermos pelo objeto da nossa emoção. É físico. Há um frio na barriga, uma alegria extasiante, uma necessidade de ter, de estar perto. É, por isso, uma emoção egoísta, precisamos de alimentar a paixão para nos sentirmos bem. Já o amor, é um sentimento de substrato altruístico. Pelo destinatário do nosso amor, somos capazes de nos ultrapassar, de considerar, em primeira instância, o que amamos em detrimento de nós próprios. 

Por isto, sei que as estórias são o meu amor mais antigo. Em pequena, absorvia as palavras da minha mãe com fervor. Olhos esbugalhados de entusiasmo a viajar em deleite. Ao entender que as suas palavras indiciavam um final, os olhos eram aflitos, lacrimejantes, refletiam severa desilusão. Pedia mais estórias. As estórias em forma de palavras, foram o meu primeiro contacto com os mundos transponíveis. Seguiram-se os filmes, o teatro, a música. Cada uma destas modalidades me fascinou – e rápido me assolou a vontade de ter uma voz para partilhar. Ao escrever, sentia que a minha alma vertia segredos que eu desconhecia até então. Lembro-me que ao desenhar o ponto final, me sentia leve, feliz. Nunca mais consegui reproduzir esse sentimento, igual a quando era menina e as palavras fluíam, sem interrupção no raciocínio. 

Mais tarde, comecei a escrever e a encenar humildes peças de teatro caseiras. Apesar da timidez que me cunhava, sentia um prazer desmesurado em contar histórias de outro modo, de partilhar uma visão mais completa. Teatro era dar mais do que palavras, era dar voz, corpo e gestos. Rapidamente me encontrei embrenhada pela emoção do teatro musical. Aí, juntava-se ao conluio a música, as letras vibrantes, a dança. A estória era contada através de mais variantes e, aí, exprimia-me em força, a emoção era intensificada, catártica. Foi um percurso em direção ao mesmo amor.

Atualmente, há plataformas várias que dão a voz a quem a quiser usar. Mas poder comunicar não significa saber fazê-lo. É importante valorizar quem sabe informar, dar notícias, contar histórias, partilhar devaneios. É importante desfolhar, dentro de uma miríade de palavras desajustadas, as que são criadas para despertar emoções, consciências, comportamentos. A era do ser “social” torna propício a afloração da mediocridade. Cuidemos de diminuir o volume das “opiniães” alheias, sem qualquer construção de base; nas falácias noticiosas; nos títulos sensacionalistas sem conteúdo probatório.

É cada vez mais difícil sermos surpreendidos, estamos em permanente estimulação, há muita coisa a suceder-se à velocidade 5G, temos acesso a uma complexidade de assuntos. Tudo isto constitui um desafio encorpado para boa parte dos meios de comunicação social, que preparam artimanhas desesperadas para nos despertar atenção. Tudo isto cansa a paciência e a disponibilidade para nos fascinarmos com outras visões. Estamos esgotados como os stocks de papel higiénico. Ainda assim, eu amo as estórias. E penso serem o meu amor mais antigo. Viajo com elas, vivo para depois reviver, recontar. Sei que existo porque tenho um passado, tenho história rodeada de testemunhas, personagens, que confirmam a minha presença. Como interpela Caetano Veloso “Quando a gente gosta é claro que a gente cuida”, por isso, cuidarei das mensagens, das inquietações, dos dilemas e continuarei a dar cor a tudo isso. 

O amor move-nos e o mundo, não deve parar! Amemos!

Márcia Branco


Eu não amo as pessoas

Eu não amo as pessoas,

não como amo as coisas 

As coisas são quietas e surdas

essencialmente 

São o que eu decidir delas 

Uma colher pode ter mil ofícios 

E todos eles úteis e todos eles belos 

Projeto ideias, projeto projetos 

Sopro-lhes 

E crio imagens difusas e claras 

Vida 

Unilateralmente criada 

As coisas nunca são incoerentes 

mantém-se como promessa efetiva 

Real 

Como elas 

As pessoas têm passado

As coisas são do presente 

Úteis agora 

Depois 

Nada 

E não se importam 

ficam quietas e surdas 

a existir sem desígnios 

sem vontade de amar 

mas a ser amados 

porque disponíveis 

para terem o núcleo derrotado 

e tornarem a nascer 

na praticabilidade 

da imaginação

Márcia Branco

Prelúdio: A irresistível anciania

Dizem as más línguas que dar o nome a um texto é um dos exercícios tendencialmente mais simples no processo criativo da escrita. Esse é só o momento em que, de forma elementar, mas com algum carinho e amor, se decide, qual derramamento de água bendita, reputar a nova criatura. Mas não, não se verifica, é pura especulação. Divergência factual ou imbecil atracção pelo abismo?

Mas, sobre “amor”, como assim? Mais uma antologia poética? Que fórmula ou formulação? Familiar, passional, espiritual, transcendental, eclesiástico, aos animais, à natureza, à vida, …? “Amor em tempos de …”, perdão, isto já está mais do que visto. Ora bem, então o nome será “Amor à distância”, bom, também me parece desadequado continuar focado na parte meio vazia do actual, copo. Talvez “Amor sem ecrã”, negativo, desaprovação generalizada. “O amor está no ar”, o maior chavão de todos os tempos, desconformidade absoluta. “Amor é…”, jamais, demasiados autocolantes para os da minha geração. “Comprei amor pelo jornal”, genial Abrunhosa, mas ademais não será boa ideia – crianças por perto. Já sei, parece-me interessante, e tão vago quanto baste, para me safar, vou chamar-lhe “Amor, ou lá o que é”, esta aparenta um sample – mas acho que vai ficar, soa-me bem. Não, autocensura, desapaixonada, de última hora, não vai ficar. 

Que fácil seria escrever sobre o tema, talvez-quem-sabe-certamente, que mais tinta conquistou nas suas diversas formas e mais escorrido, não necessariamente escorreito, de todos os tempos. E tão confortável, jamais libertador, que seria somente dedicar algumas linhas melodramáticas sobre noventa e tantos porcento das letras musicais, da maioria dos libretos, de transversais guiões filmados, das líricas perdidas em bibliotecas de um qualquer Paço, mas … o gosto de complicar é-me inato. Ou será tão-somente influência do tema, de cognome complicado, também essa, verdadeiramente, uma das suas características ou não mais que (in)justa e arcaica difamação.

São tantos os mitos, as definições, das mais sofisticadas às mais comuns e eclécticas expressões que não me discorre mais nada senão recorrer a algumas para de imediato as abandonar: “amor à primeira vista”; “amor carnal”; “amor ocasional”; “amor platónico”; “amor livre”; “amor cortês”; “amor à camisola”; “amor cego”; “pancadinhas de amor”; “pinga-amor”; “amor-perfeito” (imagine-se na ausência da flora); “amor ao próximo” (imagine-se na ausência da religião); “cartas de amor” (sinónimo de ridículas, para contundente mas desassossegado pensador); “cantigas de amor”; “morrer de amores”; “amor de mãe” (excessiva e infelizmente datada e conotada); “ilha dos amores” – não se apoquentem que ainda estou bem, particularmente, do meu olho direito, isto é unicamente excesso de tempo “livre”, o mais recente novo normal. Que entre a serenata.

Amor assintomático
O verdadeiro amor

Quando respiramos não pensamos que temos de o fazer, nem tão pouco que o estamos a fazer. Constato, de forma serena mas convicta que algumas das coisas mais importantes das nossas vidas não as sentimos, porque ocorrem, estão ali, fazem parte de nós, do nosso viver. Não as sentimos, mas valorizamo-las imensamente, muitas vezes de forma inconsciente. Esta condição, funciona como inspiração, sem que nos apercebamos, nomeada e cognitivamente. Pois é exactamente este o ponto, ou será que é um contraponto?

A predisposição para a afectividade e para a afeição, com a dose certa de atenção – diria -, aconchegantes, que nos iluminam a alma, bombeiam o coração e que nos permitem sentir as atracções e contracções da (“restante”) vida, simplesmente acontecem e não se sentem. Evidentemente que em alguns estágios, momentos ou enquadramentos deste percurso, ainda bem que existem períodos com “danos” colaterais e que podem ser definidores e reveladores, alguns dos quais realmente sintomáticos. Muitos deles genuinamente bons, mas esses, seguramente, ficam só por breves momentos, estão sempre, apenas, de passagem.

Com a herança que o tempo, esse sim, o tal que foi e já não volta, vai deixando, encantando de mais experiência e alguma sapiência, espera-se que, em parceria com a lucidez, ajude a equilibrar a transformação hormonal e o envelhecimento celular. Efectivamente essas, que nos permitem sentirmo-nos bem, mantendo a importante capacidade de “amor-próprio” para que a vida, também, contemplativa, aconteça, essencialmente com sintomatologia.

Em jeito de prazer “final”, ou, porque não dizê-lo, “final feliz” e sugestionado por um estadista do século passado, resta-me partilhar a constatação, ou meramente uma prosaica reflexão, de que “o amor é a coisa mais simples das coisas mais complicadas”. E, já agora, com audácia e direito a segunda oportunidade, Rita Lee, em “Amor e sexo”, entoava; “Amor é isso”.

Vamos respirando e o amor assim acontece.

Garcia
Anónimo Inveterado

(escrita de acordo com a antiga ortografia)

Da banalidade do bem

Apanhados desprevenidos na azáfama quotidiana do que julgamos serem tempos sem as estórias trágicas que nos habituámos a ler em compêndios históricos ou em narrativas que escutávamos incrédulos da boca de antepassados que sobreviveram a tragédias que pensámos encerradas em capítulos irrepetíveis, porque superados pelo engenho do homem moderno em manada, de quem pensávamos ser culminante exemplo acabado.

Percebemos rapidamente a periclitância de tudo quanto demos por adquirido, das prateleiras repletas de papel higiénico nos supermercados, ao ordenado garantido na conta ao fim do mês, sem esquecer a benevolência dos mercados, a força da autoridade, a liberdade de movimentos ou a necessidade de sindicatos e de patrões. 

Até ao surgimento de um vírus mortífero que nos confinou em casa, de cuja varanda torcemos pelos médicos e enfermeiros que nas trincheiras hospitalares lutam pela sobrevivência dos nossos velhos e frágeis, como se de uma vitória num qualquer campeonato se tratasse, enquanto suplicamos ao Sol por vitamina d e pelo fim da súbita distopia em que nos vimos enredados.

Quando pudermos finalmente parar de analisar números, curvas e contracurvas de gráficos de mortos, salvos e moribundos, esperançosamente, porque a esperança não sucumbe jamais e resiste a cargas virais inimagináveis até ao momento em que lhes resiste, o rescaldo da luta universal contra o microscópico bicho que paralisou o mundo, a economia, as ideologias e os até então imperativos categóricos de tudo e um par de botas, será então possível.

Talvez traga gravado no imaginário coletivo a necessidade imperativa de resposta à inversão da questão que ocupou Arendt depois da grande tragédia do século passado: podemos praticar o bem sem sermos bondosos? Resistiremos, prevaleceremos, evoluiremos, por imperativo de sobrevivência e/ou revelação instintiva da natureza humana?

Diremos então, vencido o estado de terror absolutamente excecional, que o amor foi capaz de uma presença omnipresente, ainda que desconfiemos que apareceu convenientemente sob mero disfarce do bem?

A principal causa dessa perplexidade residirá na constatação da realidade que, embora os atos do bem possam transformar-se em monumentais realizações humanas, os autores individuais dessas ações foram muitas vezes marcados com a mundanidade absoluta que a mesquinhez utilitária não pode ocultar e não com a grandiosidade divina com que os seus atos ajudaram o bem  a prevalecer.

Seremos então capazes do bem por essência, logo criadores divinos, émulos consagrados do amor que só com a tragédia se tornou finalmente banal.

Daniel Filipe Martins