Chegou ao fim… a teimosia de Bach

“Todos devemos ter mais consideração com o outro”, Miss Croácia, 2012.

A ser verdade, a frase da menina Burg foi dita no ano daqueles que foram os últimos grandes Jogos Olímpicos do medo, os de Londres. Na altura, o terrorismo era uma “sombra” diária e o mundo atravessava uma crise económica que fazia mergulhar o próprio Reino Unido na segunda recessão em três anos. Mesmo assim, o primeiro-ministro David Cameron prometeu converter a realização britânica em “ouro puro”. Verde. Para isso, a XXX Olimpíada estava assente na ideia de ecologia. com o aproveitamento de recursos e espaços. E, como observei “in loco”, conseguiu fazer brilhar a cidade. Se bem que com uma luz de “quilate” inferior ao que tínhamos visto quatro anos antes na pujante Pequim.

Agora, oito anos volvidos e chegados a “Tóquio-2020”, o medo voltou a instalar-se em vésperas da maior competição desportiva do planeta. Através de um factor totalmente inesperado e impensável nos tempos modernos: uma doença, que ameaçava transformar a competição e o lema olímpico em algo como “menos rápido, menos alto, menos forte”. E só o senhor [Thomas] Bach é que parecia não o compreender.
O compatriota do compositor e ex-campeão alemão de esgrima é o actual presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) que teimava em manter uma prova “ferida de morte”, caso esta se disputasse no próximo Verão. Há atletas que ainda não conseguiram o apuramento – cerca de 45 por cento dos elegíveis – mas que também não tinham provas para o tentarem por estas se encontrarem suspensas ou adiadas. Quem já havia “carimbado o passaporte” para a capital japonesa está, na sua maioria, retido em casa e, assim, também impedido de treinar.

Mais: a “onda” da COVID-19 atravessa a Europa, vinda da Ásia, e irá a seguir “rebentar em força” na América. O que, segundo alguns cálculos, deverá acontecer a poucos dias daquela que seria a data da cerimónia de abertura no novo Estádio Nacional do Japão. Limitando e enfraquecendo, deste modo, a disponibilidade física (e mental) dos competidores oriundos daquele continente e deixando-os em desigualdade para com os demais. Por isto, o que já não é pouco, vários países ameaçaram ficar em casa, em caso de manutenção do calendário previsto. E até Portugal já o havia entendido e se “desalinhou”, quando o responsável do nosso comité pediu rapidez no anúncio de adiamento dos Jogos Olímpicos por carta dirigida directamente ao antigo “espadachim”.

Restava ao senhor Bach pôr fim a esta “sinfonia triste” fazendo como as misses e desejando “paz e prosperidade aos povos” (presentes em Tóquio) mas (agora e finalmente) só em… 2021.

Rui Costa Viegas

Navios na Cidade

O que têm em comum um navio, uma prisão, um convento, um campo de concentração e uma caserna? Os cinco são o que sociologicamente se conhece por instituição total.

Segundo o Sociólogo Erving Goffman, trata-se de um lugar onde os indivíduos estão fechados 24 horas por dia, 7 dias por semana, com o mesmo conjunto de pessoas, por período de tempo considerável. São sociedades monorole, ou seja, sociedades onde um indivíduo tem o mesmo papel em relação aos outros durante todo o tempo.

Fora das instituições totais, repartimos o nosso tempo entre diferentes roles, segundo a atividade e as pessoas com quem estivermos: por exemplo, segundo o momento do dia eu posso ser mãe, escritora, amiga, professora, cliente, desportista, prima, etc… Num navio, o cozinheiro é sempre o cozinheiro, numa prisão um preso é sempre um preso.

Para a saúde psicológica de uma pessoa é bom desempenhar diferentes papéis no nosso quotidiano, para que todas as facetas da nossa personalidade possam ser reveladas normalmente. Os navios têm uma peculiaridade acrescentada: o número reduzido de pessoas. Com a crescente automação do mundo marítimo, as tripulações são cada vez mais reduzidas; hoje é possível encontrar apenas 12 tripulantes a trabalhar num navio de carga de 200 metros de comprimento.

O cativeiro e o isolamento das instituições totais podem conduzir às seguintes consequências psicológicas: transtornos no comportamento social, transtornos cognitivos, transtornos de personalidade, transtornos de comunicação, riscos picopatológicos, ansiedade, stress, depressão, crise emocional, transtornos afetivos, externalização do locus de controle, introversão, perda da objetividade ou até tankeritis, uma doença psicológica exclusiva dos navios, na qual os afetados sofrem de alucinações e perdem a noção da realidade.

Agora que o país está em estado de emergência devido à pandemia da Covid-19, os cidadãos estão a experimentar nas suas casas o que é viver numa instituição total, e na maioria dos casos, com menos indivíduos que num navio. A vida dentro destes microcosmos sociais vai ter sem dúvida repercussões na saúde mental das pessoas, especialmente daquelas que estejam totalmente sozinhas.

De todas as necessidades do ser humano, há duas essenciais para o equilíbrio emocional, que são o contacto com outras pessoas e passar tempo ao ar livre no meio da natureza. Durante milénios fomos nómadas gregários, e ainda que a tecnologia nos permita outras vias de comunicação a distância, nenhuma substitui um bom abraço. O recolhimento domiciliário obrigatório para controlar a pandemia provocada pelo coronavírus é um campo de cultivo para os transtornos psicológicos, e não só os que afetam os indivíduos que se encontram em instituições totais, como também algumas fobias específicas relacionadas com a situação atual.

Como a agorafobia, que é o medo a estar em sítios públicos com muita gente; a afefobia, que é o medo do contacto físico e a bacterofobia, que é o medo dos vírus e as bactérias. Penso que as psicopatologias que se desenvolveram (ou piorarão com mais probabilidade) são a hipocondria, o transtorno de ansiedade generalizada (TAG), o transtorno obsessivo compulsivo (TOC), e os ataques de pânico.

Este artigo não pretende assustar ninguém, nem ser apocalítico, mas é importante que se tome consciência para prevenirmos ou tratarmos destas possíveis situações atempadamente. Por sorte, nos nossos pequenos navios de concreto temos muitas ferramentas para nos entretermos: Wi-Fi, 4G, Netflix, UberEats e desde hoje… a Mordaz, a primeira revista digital nascida nos tempos do Coronavírus.

Olga Delgado Ortega (Doutora em Ciências Sociais; Professora e Coach assistida por cavalos)

A realidade I40 no contexto do novo coronavírus – o novo normal!

É normal trabalharmos, é normal fazermos reunião e irmos
para escola estudar, ir ao shopping e ao cinema, ao
mercado e sairmos para comer fora, é normal… é normal,
até ao momento em que deixa de ser – e criaram
as tais das barreiras não farmacológicas, que restringem
basicamente o convívio social, que é exatamente o que
nos diferencia como seres humanos. A relação humana
deixou de ser normal e passou a ser um problema!

E então, tudo aquilo que tratávamos como conveniência,
supérfluo, aquelas coisas de nerds e gajos que gostam
de tecnologia, de millennials que usam a tecnologia
para tudo, isso sim, passou a ser do interesse de todos.
Aqueles que negavam e recusavam a tecnologia como
se fosse algo de outro mundo, diferente do seu, sempre
achando tudo muito confuso e confundindo a transformação
digital com redes sociais e a fazer internet
banking, isso sim, isso sim, passou a ser o novo normal.

Agora, dentro deste novo normal, onde estamos “convidados”
a ficar dentro de casa, tudo começou a ficar mais
acessível. À distancia que estamos do smartphone, tudo
converge para ele, e de lá, pronto… podemos aceder ao
mundo para fazer compras, de comida, a remédio, irmos
a concertos e cinemas, através dos canais de streaming
ou usando VR e falar com nossas assistentes virtuais,
usando IA: “Alexa, como está a bolsa?… Bolsa não, Alexa,
toca música clássica (para acalmar!), agenda um evento
com o Fulano, liga para Cicrano”. Mantemo-nos conectados
aos sites de noticias do mundo através da internet,vamos ao banco pelas aplicações, movimentamos tudo
usando os aplicativos de entrega. Hoje vi no Youtube um
drone, levando um cachorrinho passear na rua e o dono,
controlando… da varanda de casa?!?!

As pessoas continuam a conviver através da media
social, redes colaborativas unem funcionários de empresas
que deixaram de se reunir num único endereço
e passaram a trabalhar virtualmente em vários locais,
enfim… Com mais de trinta anos de vida profissional, nunca
vivemos uma experiência transformadora como esta
que estamos experimentando agora, para vivermos o
nosso novo normal.

Nunca tivemos a oportunidade de ver de forma tão clara
o significado do termo MUVUCA (Meaningful, Universal,
Volatile, Uncertain, Complex, Ambiguous) aplicado na prática
associado ao fenómeno de propagação do COVID-19.
Jamais em tempos de paz tivemos tão claro, um propósito
único para a humanidade, que é o combate ao
vírus; a universalização e globalização de um problema
como este nunca foi sentido de forma tão enfática
como agora. Com todos os esforços no sentido de evitarmos
a propagação da doença, o Mundo escancarou
volatilidade e incertezas, económicas com o derreter
dos mercados financeiros e a paralisação de cadeias de
distribuição. Sendo pulverizados por teorias de conspiração,
a complexidade e ambiguidade da natureza
humana nunca ficou tão evidente em discussões sobre
a seriedade ou não do problema, se sub ou superestimamos
o problema. Não é “torcida” de futebol, é serio!

Nas palestras, debates e apresentações, temos sempre
a oportunidade de dizer que todas as revoluções industriais
pelas quais a humanidade passou foram respostas
da própria sociedade para atender as demandas especificas
que nós, seres humanos, estávamos criando,
dentro dos diversos contextos pelos quais passamos.
Na era agrícola, onde a terra era o principal elemento
de anseio, éramos divididos entre aristocratas e plebeus,
tivemos a primeira revolução industrial com a
aplicação do vapor na substituição dos animais. Na era
industrial tínhamos a divisão entre o proletariado e o
mundo capitalista, com a definição das classes sociais.
Tivemos a segunda e terceira revoluções industriais,
indo do uso da energia elétrica e das linhas de montagens,
totalmente manuais no inicio, à sua completa
automação, que evoluiu nos anos 80 e 90.

E agora, na era da informação e do conhecimento, onde
o humano e o digital disputam sua posição, e a personalização
em massa passou a ser o nome do jogo, a
I40 trouxe a realidade da quarta revolução industrial
para dar as respostas que precisamos no contexto em
que o consumo é determinado pela relação que temos
com a transformação digital, definindo assim, o mundo
MUVUCA em que vivemos.
Com a pandemia que vivenciamos temos a certeza de
que certos elementos que viabilizam a implantação
da I40 passam a ter um papel importantíssimo como
alavancadores para reduzir o tempo de acharmos soluções
e para nos ajudar a mitigar os efeitos nefastos
que esta situação está a trazer para a humanidade,
conforme demonstrado no infográfico abaixo, e que
passamos a explorar a seguir.
Big data e data analytics têm um papel fundamental
para analisar e antecipar doenças emergentes e ajudar
na contenção e amplitude do seu contágio.

A consolidação do e-commerce e das Fintechs, serão importantes
para ajudar que a economia continue a movimentar-
se (e à circulação de mercadorias) e para que o
mercado financeiro continue a funcionar, mesmo com
as condições de restrição que estão a ser impostas.
A privacidade e a segurança de dados serão potencializadas
nesta situação em que a confiabilidade da informação
e o seu manuseio passam a ser fundamentais
para se ter uma visão realista da situação que estamos
a enfrentar.

Grandes aglomerações e eventos serão substituídos
por versões sociais e digitais, ao invés dos formatos
tradicionais a que estamos acostumados.
IA cada vez mais ativa, alimentando as análises de dados
e informações para que possamos ser mais ágeis,
preventivos e preditivos nos tratamentos.
Redes colaborativas e P2P (peer to peer), com cada vez
mais suporte nas plataformas de co-criação, flexibilizando
e criando escala às demandas do trabalho à distância.
Distanciamento e preservação social sendo viabilizadas
cada vez mais por sistemas autónomos de atendimento
e com a automação de actividades repetitivas e que
não agreguem valor.

User-interface (UI) e realidade aumentada auxiliando
a potencializar o processo de inclusão, colaboração e
aprendizagem das organizações e estruturas de trabalho.
Cobertura através do uso de drones de regiões potencialmente de risco mas que precisam de intervenção,
efetiva, rápida e directa, reduzindo o risco em áreas
onde o contacto humano deva ser evitado.
A mobilidade e o cloud-computing disponibilizam e democratizam a implementação rápida e efetiva das soluções
tecnológicas alcançadas.

Como dizemos, a I40 fará com que as empresas se tornem
mais inteligentes e que com a análise dos seus dados
possam cada vez mais se antecipar aos problemas
e prever em tempo justo, quais ações preditivas ela
precisa tomar no seu processo decisório como um todo
e potenciar a sua capacidade de entregar resultados.
A tecnologia ajuda a gerar os dados e a transformá-los
em informação – e as informações transformam-se em
conhecimento que ajuda a optimizar os negócios. Mas
neste caso, a tecnologia de facto ajuda a salvar vidas e
atua como um recurso-chave que viabiliza o alcançar
de metas até há pouco tempo inimagináveis.

Por outro lado, sabemos que toda a inovação só faz sentido
se puder ser útil e fazer algo que ajude as pessoas,
criadas por e para pessoas, mas muitas lições ficam deste
processo: Reafirmarmos a aprendizagem e perguntamo-
nos se construir um hospital em dez dias é inovação
– ou se é o novo normal – não será tão estranho talvez
num futuro imediato como poderá soar agora.
Juntamente com as inovações vêm as ondas tecnológicas
e com elas os ciclos económicos, que serão cada vez
mais curtos, rápidos e disruptivos, como a tecnologia,
dando-nos a certeza de que não estamos vivenciando
a crise, e sim, a crise da vez, só esperando a próxima. E
de que este cenário faz parte de um contexto que passa
a ser parte do “novo” normal – e isto consequentemente
provoca-nos a sair da zona de conforto, alterando
a forma como nos relacionamos e nos comportamos
em função da necessidade de adaptação. Já que, como
dizia Darwin “…não são os mais fortes que sobrevivem
e sim os que mais rapidamente se adaptam…”.

A I40 traz um comportamento desejado e esperado,
que é determinado pela necessidade de entrarmos os
nossos esforços e soluções na flexibilidade, agilidade,
colaboração, cooperação e co-criação com as plataformas
de inovação aberta casa vez mais presentes no
nosso ecossistema… Quando passamos por estes aspectos,
a impressão que nos dá é a de que devemos
então ser algo muito parecido com o que as startups
são, e aí destacamos um engano que cometemos frequentemente:
não temos que nos transformar em startups.
Isso não é possível na minha opinião, mas sim,
devemos aprender a trabalhar como e com elas.
Só assim podemos criar soluções disruptivas e entender
que construir um hospital em 10 dias não deveria
ser visto como excepção, mas sim como o novo normal.

O errado é demorar anos. E para isso, um ambiente regulado
no sentido de que viabilizemos as condições de
aprendermos, testarmos e experimentamos é essencial,
pois quando enfrentarmos o que estamos enfrentando
agora, por exemplo, já estaremos tomados por
uma forma de pensar mais condizente com a realidade
dos dias em que vivemos.
Concluindo, de uma coisa temos certeza: não sairemos
desta situação em que nos encontramos agora, iguais
ao que éramos quando entrámos. E, como somos optimistas
por natureza, temos certeza de que sairemos
bem melhores, mais evoluídos, principalmente como
seres humanos.

Vamos entender que o cisne negro vem para propor
mudanças e disrupção e é exatamente este o Mundo
em que vivemos. Além de recuperarmos, vivermos e
consolidarmos muitos valores humanos, que fomos
deixando para trás ao longo dos anos, questionar se a
nossa relação com o trabalho, com o capital, com nossa
família, é a melhor que podemos ter – e entender que a
tecnologia faz parte de nossas conquistas – ajuda-nos
e é uma resposta às nossas próprias necessidades. De
que estamos na frente da criação e que ela é essencial
para passarmos por este 2020, que já ocupa um lugar
especial na história da humanidade.

A I40 é nossa aliada, ela nos dará a condição necessária
para que possamos fazer aquilo que naturalmente
fomos criados para fazer: sermos humanos! Basta que
acreditemos e trabalhemos muito neste sentido.

António Grandini (VP da Unidade de 4.0 da Inova Consulting)

Luis Rasquilha (CEO da Inova Consulting)

Manual de Instruções precisa-se

“It´s the end of an era, is true”, cantam os LCD Soundsystem enquanto penso nestes tempos em que as fronteiras do pensamento se diluem, em que as aparentemente prósperas sociedades descobrem a visão das filas para as prateleiras semi-vazias, em que as potências do mundo entram numa nova corrida, já não no espaço infinito, mas no laboratório, naquela dimensão que o simples olhar humano não alcança. Em que o ar se vai purificando com o abrandar da grande máquina.

E sorrio levemente sobre as ruínas dos modelos e verdades até agora absolutas, que são sempre as primeiras vítimas do inusitado e inesperado. Novos tempos, novos ritmos, novos hábitos. Ou então apenas a redescoberta do que nos escapava, engolido pela anterior voracidade da vida, em que o tempo recupera o ser valor.

O paradoxo do tempo acelerado da permanente mudança diária que acaba por trazer outro tempos, mais lento e livre, para os projectos sempre adiados, as palavras há muito por dizer e aos novos desafios a que este quotidiano nos empurra. E concluo, transitório que seja o conceito nestes novos ares que se respiram, que precisamos de um novo manual de instruções.

“Every day is a different warning, there´s a part of me hoping is true”. Escrevo em frente à janela, porque há que manter sempre o horizonte.

Gonçalo Pina

Campos de Esperança

Sinto-me de pé, parado às portas do Saara. A brisa é quente, suportável, mas mesmo assim seca os lábios. Quero falar, mas não consigo. Tenho de ter coragem para esta travessia. Todos temos, mas neste momento estou quase sozinho.

Mentira. Sou um exagerado. Não estou às portas do Saara e muito menos sozinho. Era, e é, impossível fazer uma travessia desta natureza sozinho. No Alentejo ninguém vive ou morre sozinho. Vive-se e morre-se vizinho. Vizinho de alguém. A solidão, apesar da vastidão, não é opção. Até rima não é? Rima com prima ou com primo. Somos todos primos. Primamos por ser primos.

Este Alentejo de que vos falo é um Alentejo interior profundo. Outrora abandonado, mas nunca mal amado. Esquecido talvez. Quem tem sonhos próprios e os faz nascer nesta planície vive na corda bamba. No fio da navalha. A voar num trapézio sem rede. Quiçá sobre um ninho de cucos. Nunca é fácil, mas costuma dizer-se que, se fosse, não era para nós.

Acreditamos nisso. E trabalhamos para acreditar nisso.
Nesta dificuldade acrescida, com a qual por estes dias nos deparamos, vamos sempre contar com os outros, para o que se espera ser uma longa travessia. Com os primos e com o resto da família. Levamos mantimentos e principalmente muita esperança engarrafada para o fazer. A travessia será árdua. Mas vamos de certeza chegar ao próximo Campo mais fortes e mais animados para continuar.

Não seremos os primeiros. Seremos os próximos a fazê-lo.

Martinho Pereira (proprietário do restaurante Campo do Caroço, em Albernoa.)

Com a língua (por uma maior aproximação social oral)

É dos livros a técnica de primeiro dominar a linguagem, ou pelo menos o discurso, para depois dominar a sociedade. Ou seja, com a língua ganham-se (r)evoluções.

Qualquer uma de nós sabe que, por mais giro que ele seja, se abre a boca e só sai disparate, fede ou sai de timbre… será sol de pouca dura. Pelo contrário, aquele tipo banal que quando fala nos captura a imaginação, pode até demorar uns meses a ser apresentado às amigas, mas já conhece o nosso edredon.

Vem isto a propósito do carácter táctil da nossa cultura, sempre aos abraços e beijinhos. Mas também aqui o coronavírus vai trazer alterações. Roubados do toque pelo vírus, resta-nos a língua. E esta, ao contrário do que se pensa, é muito mais livre!

Sim, já sabíamos que nisto as mulheres são digitais e os homens manuais. Enquanto um ligeiro toque nos derrete ou enregele, eles precisam de umas boas palmadas. Nós, que precisamos sempre de beijar, tocar, abraçar todos os amigos e conhecidos com que nos cruzamos na rua, nós que evitamos cruzar o olhar com desconhecidos, nós que, se por acaso o olhar se cruza, logo o baixamos ou, numa petulante atitude, o desviamos, como vamos sobreviver num mundo pós-COVID? Num mundo sem beijos nem abraços? Mais uma vez: com a língua.

É tempo de deixarmos de ser um povo bicho-do-mato armado em hospitaleiro. Isto de andar aos beijos a uns poucos e ignorar todos os restantes deve acabar. O imposto distanciamento social – dos beijos e abraços – far-nos-á recuperar a oralidade. O bom dia, o como está, e até mesmo o singelo olá. Se e quando o quisermos apimentar haverá espaço para um sorriso. Se o quisermos moderar, devolvendo-o ao silêncio, duvido que ele não se revolte e saia na mesma, ainda que mudo, como um mimo acena a cabeça.

Será vénia? Será simpatia? Indiferença não será certamente e o olhar não se afasta assim. Contraintuitivamente, seja pela imposta irmandade da quarentena, seja pela redescoberta da proximidade humana, teremos a desculpa de, fechados os corpos, termos soltado as línguas, ao telemóvel, por whatsapp ou com emojis. Voltamos a descobrir o prazer do oral. E não o vamos querer perder.

Também contraintuitivamente, essa oralidade é mais livre, não causa o embaraço de abraçar um estranho. Vai passar a ser possível dizer olá a com quem nos cruzamos. Não será um convite, uma provocação ou um piropo. Será apenas uma celebração de liberdade, de dizer “estou aqui” e vejo que também “estás aqui”. Será voltarmos a ser parte, será voltarmos a ser todo(s). Todos partes de um todo que se relaciona, livre, com a língua.

Vamos passar a dizer “olá”!

Rita Pato

(A autora não escreve segundo o acordo otográfico, mas às vezes esquece-se e lá vai fato consumado)

As Palavras por Dizer

Não sabia o que fazer com tantas palavras. Já pouco gostava delas, e por isso decidiu subir ao cimo de um monte para as lançar ao vento. Foi o que fez, assim que arranjou coragem. Porém, antes de cumprir com a sua vontade, resolveu atirar-se juntamente com elas. Sempre achou que, nas más histórias, todas as personagens deveriam morrer.

Carlos Vila Maior Lopes

A Demissão de Deus

Deus pode ter pretensões a ser eterno, mas envelhece como todos nós. E dorme e distrai-se cada vez mais. Tenho-o como um bocado preguiçoso. Fez o mundo em seis dias e depois descansou, o que não abona nada a favor da
sua aplicação.

No fundo, foi o primeiro a inventar a semana inglesa e
não havia Inglaterra. Na minha opinião, não descansou:
desistiu. Deixou-nos este mundo incompleto cheio de
gente imperfeita. Esteve-se nas tintas.

Neste tempo maligno, Deus dorme. De nada vale gritarmos-
lhe: «Ei! Deus! Acorda! Vem cá abaixo resolver esta
merda!». Ressona e a Terra treme. A única resposta que
nos dá é o espirro do Papa, que como todos sabem é
uma espécie de mordomo, mas vestido de branco.

Alberto Caeiro teve um amigo menino que lhe contava tudo
sobre esse Padre Eterno que ronqueja: «Diz-me muito
mal de Deus/Diz que ele é um velho estúpido e doente/
Sempre a escarrar para o chão/E a dizer indecências…»
Pois… o Caeiro já sabia há muitos anos que tudo no
céu é estúpido como a Igreja Católica. E que Deus não
percebe nada das coisas que criou. «Ele diz, por exemplo,
que os seres cantam a sua glória/Mas os seres não
cantam nada/Se cantassem seriam cantores».

O menino do Caeiro cansa-se de dizer mal de Deus e adormece nos seus braços e ele leva-o ao colo para casa.
Eu não me canso de dizer mal de Deus porque tenho
tanta gente para pegar ao colo e não posso.
Olho as ruas e estão vazias. Que diabo te deu na cabeça
para fazeres esta merda, seu velho estúpido e ignorante?
Até que ponto os teus caminhos ínvios são assim
tão perversos?

Acorda, deus! Seu deus em letras minúsculas. Se queres
ganhar direito a maiúsculas, devolve-me todos os
abraços que tenho aqui a estragarem-se nos braços
porque não me deixas tocar em ninguém. Obrigaste-nos a fazer um intervalo na ternura? Decidiste
que o amor voltará a ser à distância como antes do
pecado original? Ou não passas de um velho que dorme e se esquece, no qual ninguém as igrejas, agora fechadas, podem confiar?

Acorda! Acorda depressa e faz alguma coisa!
Exijo-te que me devolvas o direito de beijar a testa dos
meus pais e andar pelas ruas de mão dada com a mulher
que amo.

Se não consegues fazer sequer um suave milagre como
esse, demite-te de ser Deus e deixa que alguém competente
tome o teu lugar. Dentro da tua eternidade não devia haver lugar para a cobardia. Acuso-te! Tu que desataste a matar-nos todos pelas costas, à traição, e consegues dormir sem consciência.

Para teu castigo, encontrarei algures o Deus que falta,
humano e natural, um divino que saiba brincar. «E assim
vamos os três pelo caminho que houver/Saltando e
cantando e rindo/E gozando o nosso segredo comum/
Que é saber por toda a parte/Que não há mistério no
mundo/E que tudo vale a pena».

Olhando as ruas vazias desisti de ti. Não vales o esforço
de um parágrafo.

Afonso de Melo

Toca e Foge

Podemos afirmar que Portugal e a Europa passam pelo seu maior conflito desde 1945. O nosso inimigo não é um exército. O nosso inimigo não tem aliados.

O nosso inimigo está contra a humanidade inteira. Diante do inimigo, esta Europa não teve governantes fortes nem carismáticos, que tivessem entusiasmado os povos à luta e à vitória. Enquanto morriam pessoas, discutia-se em Bruxelas o tamanho das máscaras e o modo de agrafar fitas. Nenhum governante Europeu teve a força e carisma para enfrentar este inimigo, nenhum! – quem o enfrentou e enfrenta é o Povo. Permitam-me dizer com orgulho: os Portugueses são um Povo extraordinário! O nosso bom-senso, a nossa calma, o nosso sentido familiar e comunitário diante desta praga enchem-me de confiança para o futuro. Mesmo os putos na praia e os bêbados do Cais do Sodré, mesmo os incautos passeantes da Póvoa de Varzim provocaram a reacção de maior união, mais acatamento às indicações da DGS e a ficarmos em casa.

Mais: os Portugueses entenderam a necessidade de haver um SNS robusto. Entenderam que nem tudo se reduz ao dinheiro. Entenderam que uma certa ideia “liberal” pura e simplesmente não faz parte das características culturais e emocionais dos Portugueses. Haverá desobedientes, gente incrédula, gente que se está nas tintas para tudo o que vivemos. Mesmo essas não invalidam a opinião de que somos um povo extraordinário. Findo este tempo de doença e mortes, desconheço se os Países olharão para Bruxelas como um arrimo seguro. Talvez a Itália mande bugiar esta União Germânica, talvez Bruxelas abra os cordões à bolsa e inunde os mercados com fundos e prebendas, para impedir a compra chinesa das empresas europeias por atacado. Desconheço mesmo. E nós? Que nos acontecerá em termos políticos? Os conflitos tanto derrubam como elevam políticos, tanto sublimam as forças e as fraquezas dos governantes.

O Povo acaba por ver quem o defendeu e quem fugiu. Curiosa foi a reaparição das respostas do poder local. Os Presidentes de Câmaras têm sido a grande surpresa, até agora, das demonstrações de rapidez na decisão e transmissão de autoridade política. E houve aqueles que demonstraram não ter qualidades de chefiar o Povo Português e estar presentes, no momento em que este conflito aconteceu. Por isso, tenho quase, quase por certo que haverá um desaparecimento e um ressurgimento, causados pela reacção do Povo a estes tempos: Desaparece Marcelo Rebelo de Sousa e aparece Miguel Albuquerque.

Pedro Baptista-Bastos

EDITORIAL | Inside Job

Uma boa parte de nós já vivia quando se deu o fim do império colonial.
Lá em casa, sem saudades do que nunca tivemos, lembro-me dos primeiros anos de criança, de mãos dadas com a esperança num novo futuro. Que daquela vez é que seria, havia liberdade, consumo – e por isso, mais prazer – estavam escancaradas as portas do progresso e do mundo. Começámos de novo a pensar assim com a adesão à União Europeia, mas isto fica para depois. Com as quedas do muro de Berlim e da Cortina de Ferro já fui eu a pensar o mesmo. Depois da primeira guerra do Golfo, do 11 de Setembro e de Barack Obama, também nos remetemos à esperança de um mundo melhor. Mas a porta passou a janela e esta a postigo, postigo que se vai fechando. Vamos ficando sem luz.
Tudo o que vivemos a seguir a cada momento marcante conduziu-nos sempre a um tardio ponto de reflexão. Anos depois, fizemos o trackback ao instante em que podíamos e tínhamos a obrigação de ter feito melhor com a oportunidade concedida. Arrependemo-nos sempre mais do que não fizemos.

Chegou mais um desses momentos, talvez o maior. E estamos agora no que toda a gente sabe, sem nada sabermos, fechados em casa, com dois inimigos invisíveis. Um que está lá fora e se chama COVID-19 e outro que está cá dentro e se chama desinformação, verdades antigas, mentiras e lixo – é um nome comprido, porque se trata de um novelo. Dispomos do tempo, dos meios e temos a urgente necessidade evidente de alterar, para melhor, o rumo das nossas vidas. O que falta então, ajuda? Sem pessimismo, acredito que não vamos beneficiar de qualquer ação salvadora. E que a melhor ajuda que poderemos ter já lá está, no silêncio dos nossos pensamentos e, como diz o meu pai, “na ponta dos nossos braços”. Por outro lado duvido sinceramente que estar em casa, sem nada fazer, sirva para algo mais do que salvarmos o couro por agora. Vivemos numa alegoria de caverna, tudo lá fora já está diferente.

Na Mordaz demos forma à ideia de uma publicação criada em quarentena, para combatermos também o laxismo. O que está escrito nesta revista são opiniões que correspondem às interpretações baseadas no que os seus autores sentem e, por isso, não há nem haverá nada mais real que a verdade de cada um. Quisemos apenas que as pessoas envolvidas na Mordaz fossem capazes de sustentar as suas opiniões, independentemente do seu quadrante político ou religioso, grau tecnológico ou financeiro.
O leitor que feche o seu circuito de comunicação.

Ao Covid: para mal dos teus pecados, somos o início do teu fim.

Francisco Segurado Silva