Amor e uma cabana com livraria

Paixão. Emoção intensa, prazerosa, fugaz. 

Amor. Sentimento multifacetado, complexo, altruísta, duradouro.

É um facto que aplicamos estes dois conceitos indiscriminadamente, mas a sua diferença não está apenas no léxico ou na semântica. É vívida nos sentidos. Quando nutrimos paixão por algo ou alguém, sentimos a necessidade biológica de nos envolvermos pelo objeto da nossa emoção. É físico. Há um frio na barriga, uma alegria extasiante, uma necessidade de ter, de estar perto. É, por isso, uma emoção egoísta, precisamos de alimentar a paixão para nos sentirmos bem. Já o amor, é um sentimento de substrato altruístico. Pelo destinatário do nosso amor, somos capazes de nos ultrapassar, de considerar, em primeira instância, o que amamos em detrimento de nós próprios. 

Por isto, sei que as estórias são o meu amor mais antigo. Em pequena, absorvia as palavras da minha mãe com fervor. Olhos esbugalhados de entusiasmo a viajar em deleite. Ao entender que as suas palavras indiciavam um final, os olhos eram aflitos, lacrimejantes, refletiam severa desilusão. Pedia mais estórias. As estórias em forma de palavras, foram o meu primeiro contacto com os mundos transponíveis. Seguiram-se os filmes, o teatro, a música. Cada uma destas modalidades me fascinou – e rápido me assolou a vontade de ter uma voz para partilhar. Ao escrever, sentia que a minha alma vertia segredos que eu desconhecia até então. Lembro-me que ao desenhar o ponto final, me sentia leve, feliz. Nunca mais consegui reproduzir esse sentimento, igual a quando era menina e as palavras fluíam, sem interrupção no raciocínio. 

Mais tarde, comecei a escrever e a encenar humildes peças de teatro caseiras. Apesar da timidez que me cunhava, sentia um prazer desmesurado em contar histórias de outro modo, de partilhar uma visão mais completa. Teatro era dar mais do que palavras, era dar voz, corpo e gestos. Rapidamente me encontrei embrenhada pela emoção do teatro musical. Aí, juntava-se ao conluio a música, as letras vibrantes, a dança. A estória era contada através de mais variantes e, aí, exprimia-me em força, a emoção era intensificada, catártica. Foi um percurso em direção ao mesmo amor.

Atualmente, há plataformas várias que dão a voz a quem a quiser usar. Mas poder comunicar não significa saber fazê-lo. É importante valorizar quem sabe informar, dar notícias, contar histórias, partilhar devaneios. É importante desfolhar, dentro de uma miríade de palavras desajustadas, as que são criadas para despertar emoções, consciências, comportamentos. A era do ser “social” torna propício a afloração da mediocridade. Cuidemos de diminuir o volume das “opiniães” alheias, sem qualquer construção de base; nas falácias noticiosas; nos títulos sensacionalistas sem conteúdo probatório.

É cada vez mais difícil sermos surpreendidos, estamos em permanente estimulação, há muita coisa a suceder-se à velocidade 5G, temos acesso a uma complexidade de assuntos. Tudo isto constitui um desafio encorpado para boa parte dos meios de comunicação social, que preparam artimanhas desesperadas para nos despertar atenção. Tudo isto cansa a paciência e a disponibilidade para nos fascinarmos com outras visões. Estamos esgotados como os stocks de papel higiénico. Ainda assim, eu amo as estórias. E penso serem o meu amor mais antigo. Viajo com elas, vivo para depois reviver, recontar. Sei que existo porque tenho um passado, tenho história rodeada de testemunhas, personagens, que confirmam a minha presença. Como interpela Caetano Veloso “Quando a gente gosta é claro que a gente cuida”, por isso, cuidarei das mensagens, das inquietações, dos dilemas e continuarei a dar cor a tudo isso. 

O amor move-nos e o mundo, não deve parar! Amemos!

Márcia Branco


Eu não amo as pessoas

Eu não amo as pessoas,

não como amo as coisas 

As coisas são quietas e surdas

essencialmente 

São o que eu decidir delas 

Uma colher pode ter mil ofícios 

E todos eles úteis e todos eles belos 

Projeto ideias, projeto projetos 

Sopro-lhes 

E crio imagens difusas e claras 

Vida 

Unilateralmente criada 

As coisas nunca são incoerentes 

mantém-se como promessa efetiva 

Real 

Como elas 

As pessoas têm passado

As coisas são do presente 

Úteis agora 

Depois 

Nada 

E não se importam 

ficam quietas e surdas 

a existir sem desígnios 

sem vontade de amar 

mas a ser amados 

porque disponíveis 

para terem o núcleo derrotado 

e tornarem a nascer 

na praticabilidade 

da imaginação

Márcia Branco

Prelúdio: A irresistível anciania

Dizem as más línguas que dar o nome a um texto é um dos exercícios tendencialmente mais simples no processo criativo da escrita. Esse é só o momento em que, de forma elementar, mas com algum carinho e amor, se decide, qual derramamento de água bendita, reputar a nova criatura. Mas não, não se verifica, é pura especulação. Divergência factual ou imbecil atracção pelo abismo?

Mas, sobre “amor”, como assim? Mais uma antologia poética? Que fórmula ou formulação? Familiar, passional, espiritual, transcendental, eclesiástico, aos animais, à natureza, à vida, …? “Amor em tempos de …”, perdão, isto já está mais do que visto. Ora bem, então o nome será “Amor à distância”, bom, também me parece desadequado continuar focado na parte meio vazia do actual, copo. Talvez “Amor sem ecrã”, negativo, desaprovação generalizada. “O amor está no ar”, o maior chavão de todos os tempos, desconformidade absoluta. “Amor é…”, jamais, demasiados autocolantes para os da minha geração. “Comprei amor pelo jornal”, genial Abrunhosa, mas ademais não será boa ideia – crianças por perto. Já sei, parece-me interessante, e tão vago quanto baste, para me safar, vou chamar-lhe “Amor, ou lá o que é”, esta aparenta um sample – mas acho que vai ficar, soa-me bem. Não, autocensura, desapaixonada, de última hora, não vai ficar. 

Que fácil seria escrever sobre o tema, talvez-quem-sabe-certamente, que mais tinta conquistou nas suas diversas formas e mais escorrido, não necessariamente escorreito, de todos os tempos. E tão confortável, jamais libertador, que seria somente dedicar algumas linhas melodramáticas sobre noventa e tantos porcento das letras musicais, da maioria dos libretos, de transversais guiões filmados, das líricas perdidas em bibliotecas de um qualquer Paço, mas … o gosto de complicar é-me inato. Ou será tão-somente influência do tema, de cognome complicado, também essa, verdadeiramente, uma das suas características ou não mais que (in)justa e arcaica difamação.

São tantos os mitos, as definições, das mais sofisticadas às mais comuns e eclécticas expressões que não me discorre mais nada senão recorrer a algumas para de imediato as abandonar: “amor à primeira vista”; “amor carnal”; “amor ocasional”; “amor platónico”; “amor livre”; “amor cortês”; “amor à camisola”; “amor cego”; “pancadinhas de amor”; “pinga-amor”; “amor-perfeito” (imagine-se na ausência da flora); “amor ao próximo” (imagine-se na ausência da religião); “cartas de amor” (sinónimo de ridículas, para contundente mas desassossegado pensador); “cantigas de amor”; “morrer de amores”; “amor de mãe” (excessiva e infelizmente datada e conotada); “ilha dos amores” – não se apoquentem que ainda estou bem, particularmente, do meu olho direito, isto é unicamente excesso de tempo “livre”, o mais recente novo normal. Que entre a serenata.

Amor assintomático
O verdadeiro amor

Quando respiramos não pensamos que temos de o fazer, nem tão pouco que o estamos a fazer. Constato, de forma serena mas convicta que algumas das coisas mais importantes das nossas vidas não as sentimos, porque ocorrem, estão ali, fazem parte de nós, do nosso viver. Não as sentimos, mas valorizamo-las imensamente, muitas vezes de forma inconsciente. Esta condição, funciona como inspiração, sem que nos apercebamos, nomeada e cognitivamente. Pois é exactamente este o ponto, ou será que é um contraponto?

A predisposição para a afectividade e para a afeição, com a dose certa de atenção – diria -, aconchegantes, que nos iluminam a alma, bombeiam o coração e que nos permitem sentir as atracções e contracções da (“restante”) vida, simplesmente acontecem e não se sentem. Evidentemente que em alguns estágios, momentos ou enquadramentos deste percurso, ainda bem que existem períodos com “danos” colaterais e que podem ser definidores e reveladores, alguns dos quais realmente sintomáticos. Muitos deles genuinamente bons, mas esses, seguramente, ficam só por breves momentos, estão sempre, apenas, de passagem.

Com a herança que o tempo, esse sim, o tal que foi e já não volta, vai deixando, encantando de mais experiência e alguma sapiência, espera-se que, em parceria com a lucidez, ajude a equilibrar a transformação hormonal e o envelhecimento celular. Efectivamente essas, que nos permitem sentirmo-nos bem, mantendo a importante capacidade de “amor-próprio” para que a vida, também, contemplativa, aconteça, essencialmente com sintomatologia.

Em jeito de prazer “final”, ou, porque não dizê-lo, “final feliz” e sugestionado por um estadista do século passado, resta-me partilhar a constatação, ou meramente uma prosaica reflexão, de que “o amor é a coisa mais simples das coisas mais complicadas”. E, já agora, com audácia e direito a segunda oportunidade, Rita Lee, em “Amor e sexo”, entoava; “Amor é isso”.

Vamos respirando e o amor assim acontece.

Garcia
Anónimo Inveterado

(escrita de acordo com a antiga ortografia)

Da banalidade do bem

Apanhados desprevenidos na azáfama quotidiana do que julgamos serem tempos sem as estórias trágicas que nos habituámos a ler em compêndios históricos ou em narrativas que escutávamos incrédulos da boca de antepassados que sobreviveram a tragédias que pensámos encerradas em capítulos irrepetíveis, porque superados pelo engenho do homem moderno em manada, de quem pensávamos ser culminante exemplo acabado.

Percebemos rapidamente a periclitância de tudo quanto demos por adquirido, das prateleiras repletas de papel higiénico nos supermercados, ao ordenado garantido na conta ao fim do mês, sem esquecer a benevolência dos mercados, a força da autoridade, a liberdade de movimentos ou a necessidade de sindicatos e de patrões. 

Até ao surgimento de um vírus mortífero que nos confinou em casa, de cuja varanda torcemos pelos médicos e enfermeiros que nas trincheiras hospitalares lutam pela sobrevivência dos nossos velhos e frágeis, como se de uma vitória num qualquer campeonato se tratasse, enquanto suplicamos ao Sol por vitamina d e pelo fim da súbita distopia em que nos vimos enredados.

Quando pudermos finalmente parar de analisar números, curvas e contracurvas de gráficos de mortos, salvos e moribundos, esperançosamente, porque a esperança não sucumbe jamais e resiste a cargas virais inimagináveis até ao momento em que lhes resiste, o rescaldo da luta universal contra o microscópico bicho que paralisou o mundo, a economia, as ideologias e os até então imperativos categóricos de tudo e um par de botas, será então possível.

Talvez traga gravado no imaginário coletivo a necessidade imperativa de resposta à inversão da questão que ocupou Arendt depois da grande tragédia do século passado: podemos praticar o bem sem sermos bondosos? Resistiremos, prevaleceremos, evoluiremos, por imperativo de sobrevivência e/ou revelação instintiva da natureza humana?

Diremos então, vencido o estado de terror absolutamente excecional, que o amor foi capaz de uma presença omnipresente, ainda que desconfiemos que apareceu convenientemente sob mero disfarce do bem?

A principal causa dessa perplexidade residirá na constatação da realidade que, embora os atos do bem possam transformar-se em monumentais realizações humanas, os autores individuais dessas ações foram muitas vezes marcados com a mundanidade absoluta que a mesquinhez utilitária não pode ocultar e não com a grandiosidade divina com que os seus atos ajudaram o bem  a prevalecer.

Seremos então capazes do bem por essência, logo criadores divinos, émulos consagrados do amor que só com a tragédia se tornou finalmente banal.

Daniel Filipe Martins

Chegou ao fim… a teimosia de Bach

“Todos devemos ter mais consideração com o outro”, Miss Croácia, 2012.

A ser verdade, a frase da menina Burg foi dita no ano daqueles que foram os últimos grandes Jogos Olímpicos do medo, os de Londres. Na altura, o terrorismo era uma “sombra” diária e o mundo atravessava uma crise económica que fazia mergulhar o próprio Reino Unido na segunda recessão em três anos. Mesmo assim, o primeiro-ministro David Cameron prometeu converter a realização britânica em “ouro puro”. Verde. Para isso, a XXX Olimpíada estava assente na ideia de ecologia. com o aproveitamento de recursos e espaços. E, como observei “in loco”, conseguiu fazer brilhar a cidade. Se bem que com uma luz de “quilate” inferior ao que tínhamos visto quatro anos antes na pujante Pequim.

Agora, oito anos volvidos e chegados a “Tóquio-2020”, o medo voltou a instalar-se em vésperas da maior competição desportiva do planeta. Através de um factor totalmente inesperado e impensável nos tempos modernos: uma doença, que ameaçava transformar a competição e o lema olímpico em algo como “menos rápido, menos alto, menos forte”. E só o senhor [Thomas] Bach é que parecia não o compreender.
O compatriota do compositor e ex-campeão alemão de esgrima é o actual presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) que teimava em manter uma prova “ferida de morte”, caso esta se disputasse no próximo Verão. Há atletas que ainda não conseguiram o apuramento – cerca de 45 por cento dos elegíveis – mas que também não tinham provas para o tentarem por estas se encontrarem suspensas ou adiadas. Quem já havia “carimbado o passaporte” para a capital japonesa está, na sua maioria, retido em casa e, assim, também impedido de treinar.

Mais: a “onda” da COVID-19 atravessa a Europa, vinda da Ásia, e irá a seguir “rebentar em força” na América. O que, segundo alguns cálculos, deverá acontecer a poucos dias daquela que seria a data da cerimónia de abertura no novo Estádio Nacional do Japão. Limitando e enfraquecendo, deste modo, a disponibilidade física (e mental) dos competidores oriundos daquele continente e deixando-os em desigualdade para com os demais. Por isto, o que já não é pouco, vários países ameaçaram ficar em casa, em caso de manutenção do calendário previsto. E até Portugal já o havia entendido e se “desalinhou”, quando o responsável do nosso comité pediu rapidez no anúncio de adiamento dos Jogos Olímpicos por carta dirigida directamente ao antigo “espadachim”.

Restava ao senhor Bach pôr fim a esta “sinfonia triste” fazendo como as misses e desejando “paz e prosperidade aos povos” (presentes em Tóquio) mas (agora e finalmente) só em… 2021.

Rui Costa Viegas

Navios na Cidade

O que têm em comum um navio, uma prisão, um convento, um campo de concentração e uma caserna? Os cinco são o que sociologicamente se conhece por instituição total.

Segundo o Sociólogo Erving Goffman, trata-se de um lugar onde os indivíduos estão fechados 24 horas por dia, 7 dias por semana, com o mesmo conjunto de pessoas, por período de tempo considerável. São sociedades monorole, ou seja, sociedades onde um indivíduo tem o mesmo papel em relação aos outros durante todo o tempo.

Fora das instituições totais, repartimos o nosso tempo entre diferentes roles, segundo a atividade e as pessoas com quem estivermos: por exemplo, segundo o momento do dia eu posso ser mãe, escritora, amiga, professora, cliente, desportista, prima, etc… Num navio, o cozinheiro é sempre o cozinheiro, numa prisão um preso é sempre um preso.

Para a saúde psicológica de uma pessoa é bom desempenhar diferentes papéis no nosso quotidiano, para que todas as facetas da nossa personalidade possam ser reveladas normalmente. Os navios têm uma peculiaridade acrescentada: o número reduzido de pessoas. Com a crescente automação do mundo marítimo, as tripulações são cada vez mais reduzidas; hoje é possível encontrar apenas 12 tripulantes a trabalhar num navio de carga de 200 metros de comprimento.

O cativeiro e o isolamento das instituições totais podem conduzir às seguintes consequências psicológicas: transtornos no comportamento social, transtornos cognitivos, transtornos de personalidade, transtornos de comunicação, riscos picopatológicos, ansiedade, stress, depressão, crise emocional, transtornos afetivos, externalização do locus de controle, introversão, perda da objetividade ou até tankeritis, uma doença psicológica exclusiva dos navios, na qual os afetados sofrem de alucinações e perdem a noção da realidade.

Agora que o país está em estado de emergência devido à pandemia da Covid-19, os cidadãos estão a experimentar nas suas casas o que é viver numa instituição total, e na maioria dos casos, com menos indivíduos que num navio. A vida dentro destes microcosmos sociais vai ter sem dúvida repercussões na saúde mental das pessoas, especialmente daquelas que estejam totalmente sozinhas.

De todas as necessidades do ser humano, há duas essenciais para o equilíbrio emocional, que são o contacto com outras pessoas e passar tempo ao ar livre no meio da natureza. Durante milénios fomos nómadas gregários, e ainda que a tecnologia nos permita outras vias de comunicação a distância, nenhuma substitui um bom abraço. O recolhimento domiciliário obrigatório para controlar a pandemia provocada pelo coronavírus é um campo de cultivo para os transtornos psicológicos, e não só os que afetam os indivíduos que se encontram em instituições totais, como também algumas fobias específicas relacionadas com a situação atual.

Como a agorafobia, que é o medo a estar em sítios públicos com muita gente; a afefobia, que é o medo do contacto físico e a bacterofobia, que é o medo dos vírus e as bactérias. Penso que as psicopatologias que se desenvolveram (ou piorarão com mais probabilidade) são a hipocondria, o transtorno de ansiedade generalizada (TAG), o transtorno obsessivo compulsivo (TOC), e os ataques de pânico.

Este artigo não pretende assustar ninguém, nem ser apocalítico, mas é importante que se tome consciência para prevenirmos ou tratarmos destas possíveis situações atempadamente. Por sorte, nos nossos pequenos navios de concreto temos muitas ferramentas para nos entretermos: Wi-Fi, 4G, Netflix, UberEats e desde hoje… a Mordaz, a primeira revista digital nascida nos tempos do Coronavírus.

Olga Delgado Ortega (Doutora em Ciências Sociais; Professora e Coach assistida por cavalos)

A realidade I40 no contexto do novo coronavírus – o novo normal!

É normal trabalharmos, é normal fazermos reunião e irmos
para escola estudar, ir ao shopping e ao cinema, ao
mercado e sairmos para comer fora, é normal… é normal,
até ao momento em que deixa de ser – e criaram
as tais das barreiras não farmacológicas, que restringem
basicamente o convívio social, que é exatamente o que
nos diferencia como seres humanos. A relação humana
deixou de ser normal e passou a ser um problema!

E então, tudo aquilo que tratávamos como conveniência,
supérfluo, aquelas coisas de nerds e gajos que gostam
de tecnologia, de millennials que usam a tecnologia
para tudo, isso sim, passou a ser do interesse de todos.
Aqueles que negavam e recusavam a tecnologia como
se fosse algo de outro mundo, diferente do seu, sempre
achando tudo muito confuso e confundindo a transformação
digital com redes sociais e a fazer internet
banking, isso sim, isso sim, passou a ser o novo normal.

Agora, dentro deste novo normal, onde estamos “convidados”
a ficar dentro de casa, tudo começou a ficar mais
acessível. À distancia que estamos do smartphone, tudo
converge para ele, e de lá, pronto… podemos aceder ao
mundo para fazer compras, de comida, a remédio, irmos
a concertos e cinemas, através dos canais de streaming
ou usando VR e falar com nossas assistentes virtuais,
usando IA: “Alexa, como está a bolsa?… Bolsa não, Alexa,
toca música clássica (para acalmar!), agenda um evento
com o Fulano, liga para Cicrano”. Mantemo-nos conectados
aos sites de noticias do mundo através da internet,vamos ao banco pelas aplicações, movimentamos tudo
usando os aplicativos de entrega. Hoje vi no Youtube um
drone, levando um cachorrinho passear na rua e o dono,
controlando… da varanda de casa?!?!

As pessoas continuam a conviver através da media
social, redes colaborativas unem funcionários de empresas
que deixaram de se reunir num único endereço
e passaram a trabalhar virtualmente em vários locais,
enfim… Com mais de trinta anos de vida profissional, nunca
vivemos uma experiência transformadora como esta
que estamos experimentando agora, para vivermos o
nosso novo normal.

Nunca tivemos a oportunidade de ver de forma tão clara
o significado do termo MUVUCA (Meaningful, Universal,
Volatile, Uncertain, Complex, Ambiguous) aplicado na prática
associado ao fenómeno de propagação do COVID-19.
Jamais em tempos de paz tivemos tão claro, um propósito
único para a humanidade, que é o combate ao
vírus; a universalização e globalização de um problema
como este nunca foi sentido de forma tão enfática
como agora. Com todos os esforços no sentido de evitarmos
a propagação da doença, o Mundo escancarou
volatilidade e incertezas, económicas com o derreter
dos mercados financeiros e a paralisação de cadeias de
distribuição. Sendo pulverizados por teorias de conspiração,
a complexidade e ambiguidade da natureza
humana nunca ficou tão evidente em discussões sobre
a seriedade ou não do problema, se sub ou superestimamos
o problema. Não é “torcida” de futebol, é serio!

Nas palestras, debates e apresentações, temos sempre
a oportunidade de dizer que todas as revoluções industriais
pelas quais a humanidade passou foram respostas
da própria sociedade para atender as demandas especificas
que nós, seres humanos, estávamos criando,
dentro dos diversos contextos pelos quais passamos.
Na era agrícola, onde a terra era o principal elemento
de anseio, éramos divididos entre aristocratas e plebeus,
tivemos a primeira revolução industrial com a
aplicação do vapor na substituição dos animais. Na era
industrial tínhamos a divisão entre o proletariado e o
mundo capitalista, com a definição das classes sociais.
Tivemos a segunda e terceira revoluções industriais,
indo do uso da energia elétrica e das linhas de montagens,
totalmente manuais no inicio, à sua completa
automação, que evoluiu nos anos 80 e 90.

E agora, na era da informação e do conhecimento, onde
o humano e o digital disputam sua posição, e a personalização
em massa passou a ser o nome do jogo, a
I40 trouxe a realidade da quarta revolução industrial
para dar as respostas que precisamos no contexto em
que o consumo é determinado pela relação que temos
com a transformação digital, definindo assim, o mundo
MUVUCA em que vivemos.
Com a pandemia que vivenciamos temos a certeza de
que certos elementos que viabilizam a implantação
da I40 passam a ter um papel importantíssimo como
alavancadores para reduzir o tempo de acharmos soluções
e para nos ajudar a mitigar os efeitos nefastos
que esta situação está a trazer para a humanidade,
conforme demonstrado no infográfico abaixo, e que
passamos a explorar a seguir.
Big data e data analytics têm um papel fundamental
para analisar e antecipar doenças emergentes e ajudar
na contenção e amplitude do seu contágio.

A consolidação do e-commerce e das Fintechs, serão importantes
para ajudar que a economia continue a movimentar-
se (e à circulação de mercadorias) e para que o
mercado financeiro continue a funcionar, mesmo com
as condições de restrição que estão a ser impostas.
A privacidade e a segurança de dados serão potencializadas
nesta situação em que a confiabilidade da informação
e o seu manuseio passam a ser fundamentais
para se ter uma visão realista da situação que estamos
a enfrentar.

Grandes aglomerações e eventos serão substituídos
por versões sociais e digitais, ao invés dos formatos
tradicionais a que estamos acostumados.
IA cada vez mais ativa, alimentando as análises de dados
e informações para que possamos ser mais ágeis,
preventivos e preditivos nos tratamentos.
Redes colaborativas e P2P (peer to peer), com cada vez
mais suporte nas plataformas de co-criação, flexibilizando
e criando escala às demandas do trabalho à distância.
Distanciamento e preservação social sendo viabilizadas
cada vez mais por sistemas autónomos de atendimento
e com a automação de actividades repetitivas e que
não agreguem valor.

User-interface (UI) e realidade aumentada auxiliando
a potencializar o processo de inclusão, colaboração e
aprendizagem das organizações e estruturas de trabalho.
Cobertura através do uso de drones de regiões potencialmente de risco mas que precisam de intervenção,
efetiva, rápida e directa, reduzindo o risco em áreas
onde o contacto humano deva ser evitado.
A mobilidade e o cloud-computing disponibilizam e democratizam a implementação rápida e efetiva das soluções
tecnológicas alcançadas.

Como dizemos, a I40 fará com que as empresas se tornem
mais inteligentes e que com a análise dos seus dados
possam cada vez mais se antecipar aos problemas
e prever em tempo justo, quais ações preditivas ela
precisa tomar no seu processo decisório como um todo
e potenciar a sua capacidade de entregar resultados.
A tecnologia ajuda a gerar os dados e a transformá-los
em informação – e as informações transformam-se em
conhecimento que ajuda a optimizar os negócios. Mas
neste caso, a tecnologia de facto ajuda a salvar vidas e
atua como um recurso-chave que viabiliza o alcançar
de metas até há pouco tempo inimagináveis.

Por outro lado, sabemos que toda a inovação só faz sentido
se puder ser útil e fazer algo que ajude as pessoas,
criadas por e para pessoas, mas muitas lições ficam deste
processo: Reafirmarmos a aprendizagem e perguntamo-
nos se construir um hospital em dez dias é inovação
– ou se é o novo normal – não será tão estranho talvez
num futuro imediato como poderá soar agora.
Juntamente com as inovações vêm as ondas tecnológicas
e com elas os ciclos económicos, que serão cada vez
mais curtos, rápidos e disruptivos, como a tecnologia,
dando-nos a certeza de que não estamos vivenciando
a crise, e sim, a crise da vez, só esperando a próxima. E
de que este cenário faz parte de um contexto que passa
a ser parte do “novo” normal – e isto consequentemente
provoca-nos a sair da zona de conforto, alterando
a forma como nos relacionamos e nos comportamos
em função da necessidade de adaptação. Já que, como
dizia Darwin “…não são os mais fortes que sobrevivem
e sim os que mais rapidamente se adaptam…”.

A I40 traz um comportamento desejado e esperado,
que é determinado pela necessidade de entrarmos os
nossos esforços e soluções na flexibilidade, agilidade,
colaboração, cooperação e co-criação com as plataformas
de inovação aberta casa vez mais presentes no
nosso ecossistema… Quando passamos por estes aspectos,
a impressão que nos dá é a de que devemos
então ser algo muito parecido com o que as startups
são, e aí destacamos um engano que cometemos frequentemente:
não temos que nos transformar em startups.
Isso não é possível na minha opinião, mas sim,
devemos aprender a trabalhar como e com elas.
Só assim podemos criar soluções disruptivas e entender
que construir um hospital em 10 dias não deveria
ser visto como excepção, mas sim como o novo normal.

O errado é demorar anos. E para isso, um ambiente regulado
no sentido de que viabilizemos as condições de
aprendermos, testarmos e experimentamos é essencial,
pois quando enfrentarmos o que estamos enfrentando
agora, por exemplo, já estaremos tomados por
uma forma de pensar mais condizente com a realidade
dos dias em que vivemos.
Concluindo, de uma coisa temos certeza: não sairemos
desta situação em que nos encontramos agora, iguais
ao que éramos quando entrámos. E, como somos optimistas
por natureza, temos certeza de que sairemos
bem melhores, mais evoluídos, principalmente como
seres humanos.

Vamos entender que o cisne negro vem para propor
mudanças e disrupção e é exatamente este o Mundo
em que vivemos. Além de recuperarmos, vivermos e
consolidarmos muitos valores humanos, que fomos
deixando para trás ao longo dos anos, questionar se a
nossa relação com o trabalho, com o capital, com nossa
família, é a melhor que podemos ter – e entender que a
tecnologia faz parte de nossas conquistas – ajuda-nos
e é uma resposta às nossas próprias necessidades. De
que estamos na frente da criação e que ela é essencial
para passarmos por este 2020, que já ocupa um lugar
especial na história da humanidade.

A I40 é nossa aliada, ela nos dará a condição necessária
para que possamos fazer aquilo que naturalmente
fomos criados para fazer: sermos humanos! Basta que
acreditemos e trabalhemos muito neste sentido.

António Grandini (VP da Unidade de 4.0 da Inova Consulting)

Luis Rasquilha (CEO da Inova Consulting)

Manual de Instruções precisa-se

“It´s the end of an era, is true”, cantam os LCD Soundsystem enquanto penso nestes tempos em que as fronteiras do pensamento se diluem, em que as aparentemente prósperas sociedades descobrem a visão das filas para as prateleiras semi-vazias, em que as potências do mundo entram numa nova corrida, já não no espaço infinito, mas no laboratório, naquela dimensão que o simples olhar humano não alcança. Em que o ar se vai purificando com o abrandar da grande máquina.

E sorrio levemente sobre as ruínas dos modelos e verdades até agora absolutas, que são sempre as primeiras vítimas do inusitado e inesperado. Novos tempos, novos ritmos, novos hábitos. Ou então apenas a redescoberta do que nos escapava, engolido pela anterior voracidade da vida, em que o tempo recupera o ser valor.

O paradoxo do tempo acelerado da permanente mudança diária que acaba por trazer outro tempos, mais lento e livre, para os projectos sempre adiados, as palavras há muito por dizer e aos novos desafios a que este quotidiano nos empurra. E concluo, transitório que seja o conceito nestes novos ares que se respiram, que precisamos de um novo manual de instruções.

“Every day is a different warning, there´s a part of me hoping is true”. Escrevo em frente à janela, porque há que manter sempre o horizonte.

Gonçalo Pina

Campos de Esperança

Sinto-me de pé, parado às portas do Saara. A brisa é quente, suportável, mas mesmo assim seca os lábios. Quero falar, mas não consigo. Tenho de ter coragem para esta travessia. Todos temos, mas neste momento estou quase sozinho.

Mentira. Sou um exagerado. Não estou às portas do Saara e muito menos sozinho. Era, e é, impossível fazer uma travessia desta natureza sozinho. No Alentejo ninguém vive ou morre sozinho. Vive-se e morre-se vizinho. Vizinho de alguém. A solidão, apesar da vastidão, não é opção. Até rima não é? Rima com prima ou com primo. Somos todos primos. Primamos por ser primos.

Este Alentejo de que vos falo é um Alentejo interior profundo. Outrora abandonado, mas nunca mal amado. Esquecido talvez. Quem tem sonhos próprios e os faz nascer nesta planície vive na corda bamba. No fio da navalha. A voar num trapézio sem rede. Quiçá sobre um ninho de cucos. Nunca é fácil, mas costuma dizer-se que, se fosse, não era para nós.

Acreditamos nisso. E trabalhamos para acreditar nisso.
Nesta dificuldade acrescida, com a qual por estes dias nos deparamos, vamos sempre contar com os outros, para o que se espera ser uma longa travessia. Com os primos e com o resto da família. Levamos mantimentos e principalmente muita esperança engarrafada para o fazer. A travessia será árdua. Mas vamos de certeza chegar ao próximo Campo mais fortes e mais animados para continuar.

Não seremos os primeiros. Seremos os próximos a fazê-lo.

Martinho Pereira (proprietário do restaurante Campo do Caroço, em Albernoa.)

Com a língua (por uma maior aproximação social oral)

É dos livros a técnica de primeiro dominar a linguagem, ou pelo menos o discurso, para depois dominar a sociedade. Ou seja, com a língua ganham-se (r)evoluções.

Qualquer uma de nós sabe que, por mais giro que ele seja, se abre a boca e só sai disparate, fede ou sai de timbre… será sol de pouca dura. Pelo contrário, aquele tipo banal que quando fala nos captura a imaginação, pode até demorar uns meses a ser apresentado às amigas, mas já conhece o nosso edredon.

Vem isto a propósito do carácter táctil da nossa cultura, sempre aos abraços e beijinhos. Mas também aqui o coronavírus vai trazer alterações. Roubados do toque pelo vírus, resta-nos a língua. E esta, ao contrário do que se pensa, é muito mais livre!

Sim, já sabíamos que nisto as mulheres são digitais e os homens manuais. Enquanto um ligeiro toque nos derrete ou enregele, eles precisam de umas boas palmadas. Nós, que precisamos sempre de beijar, tocar, abraçar todos os amigos e conhecidos com que nos cruzamos na rua, nós que evitamos cruzar o olhar com desconhecidos, nós que, se por acaso o olhar se cruza, logo o baixamos ou, numa petulante atitude, o desviamos, como vamos sobreviver num mundo pós-COVID? Num mundo sem beijos nem abraços? Mais uma vez: com a língua.

É tempo de deixarmos de ser um povo bicho-do-mato armado em hospitaleiro. Isto de andar aos beijos a uns poucos e ignorar todos os restantes deve acabar. O imposto distanciamento social – dos beijos e abraços – far-nos-á recuperar a oralidade. O bom dia, o como está, e até mesmo o singelo olá. Se e quando o quisermos apimentar haverá espaço para um sorriso. Se o quisermos moderar, devolvendo-o ao silêncio, duvido que ele não se revolte e saia na mesma, ainda que mudo, como um mimo acena a cabeça.

Será vénia? Será simpatia? Indiferença não será certamente e o olhar não se afasta assim. Contraintuitivamente, seja pela imposta irmandade da quarentena, seja pela redescoberta da proximidade humana, teremos a desculpa de, fechados os corpos, termos soltado as línguas, ao telemóvel, por whatsapp ou com emojis. Voltamos a descobrir o prazer do oral. E não o vamos querer perder.

Também contraintuitivamente, essa oralidade é mais livre, não causa o embaraço de abraçar um estranho. Vai passar a ser possível dizer olá a com quem nos cruzamos. Não será um convite, uma provocação ou um piropo. Será apenas uma celebração de liberdade, de dizer “estou aqui” e vejo que também “estás aqui”. Será voltarmos a ser parte, será voltarmos a ser todo(s). Todos partes de um todo que se relaciona, livre, com a língua.

Vamos passar a dizer “olá”!

Rita Pato

(A autora não escreve segundo o acordo otográfico, mas às vezes esquece-se e lá vai fato consumado)

As Palavras por Dizer

Não sabia o que fazer com tantas palavras. Já pouco gostava delas, e por isso decidiu subir ao cimo de um monte para as lançar ao vento. Foi o que fez, assim que arranjou coragem. Porém, antes de cumprir com a sua vontade, resolveu atirar-se juntamente com elas. Sempre achou que, nas más histórias, todas as personagens deveriam morrer.

Carlos Vila Maior Lopes