Prelúdio: A irresistível anciania

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Dizem as más línguas que dar o nome a um texto é um dos exercícios tendencialmente mais simples no processo criativo da escrita. Esse é só o momento em que, de forma elementar, mas com algum carinho e amor, se decide, qual derramamento de água bendita, reputar a nova criatura. Mas não, não se verifica, é pura especulação. Divergência factual ou imbecil atracção pelo abismo?

Mas, sobre “amor”, como assim? Mais uma antologia poética? Que fórmula ou formulação? Familiar, passional, espiritual, transcendental, eclesiástico, aos animais, à natureza, à vida, …? “Amor em tempos de …”, perdão, isto já está mais do que visto. Ora bem, então o nome será “Amor à distância”, bom, também me parece desadequado continuar focado na parte meio vazia do actual, copo. Talvez “Amor sem ecrã”, negativo, desaprovação generalizada. “O amor está no ar”, o maior chavão de todos os tempos, desconformidade absoluta. “Amor é…”, jamais, demasiados autocolantes para os da minha geração. “Comprei amor pelo jornal”, genial Abrunhosa, mas ademais não será boa ideia – crianças por perto. Já sei, parece-me interessante, e tão vago quanto baste, para me safar, vou chamar-lhe “Amor, ou lá o que é”, esta aparenta um sample – mas acho que vai ficar, soa-me bem. Não, autocensura, desapaixonada, de última hora, não vai ficar. 

Que fácil seria escrever sobre o tema, talvez-quem-sabe-certamente, que mais tinta conquistou nas suas diversas formas e mais escorrido, não necessariamente escorreito, de todos os tempos. E tão confortável, jamais libertador, que seria somente dedicar algumas linhas melodramáticas sobre noventa e tantos porcento das letras musicais, da maioria dos libretos, de transversais guiões filmados, das líricas perdidas em bibliotecas de um qualquer Paço, mas … o gosto de complicar é-me inato. Ou será tão-somente influência do tema, de cognome complicado, também essa, verdadeiramente, uma das suas características ou não mais que (in)justa e arcaica difamação.

São tantos os mitos, as definições, das mais sofisticadas às mais comuns e eclécticas expressões que não me discorre mais nada senão recorrer a algumas para de imediato as abandonar: “amor à primeira vista”; “amor carnal”; “amor ocasional”; “amor platónico”; “amor livre”; “amor cortês”; “amor à camisola”; “amor cego”; “pancadinhas de amor”; “pinga-amor”; “amor-perfeito” (imagine-se na ausência da flora); “amor ao próximo” (imagine-se na ausência da religião); “cartas de amor” (sinónimo de ridículas, para contundente mas desassossegado pensador); “cantigas de amor”; “morrer de amores”; “amor de mãe” (excessiva e infelizmente datada e conotada); “ilha dos amores” – não se apoquentem que ainda estou bem, particularmente, do meu olho direito, isto é unicamente excesso de tempo “livre”, o mais recente novo normal. Que entre a serenata.

Amor assintomático
O verdadeiro amor

Quando respiramos não pensamos que temos de o fazer, nem tão pouco que o estamos a fazer. Constato, de forma serena mas convicta que algumas das coisas mais importantes das nossas vidas não as sentimos, porque ocorrem, estão ali, fazem parte de nós, do nosso viver. Não as sentimos, mas valorizamo-las imensamente, muitas vezes de forma inconsciente. Esta condição, funciona como inspiração, sem que nos apercebamos, nomeada e cognitivamente. Pois é exactamente este o ponto, ou será que é um contraponto?

A predisposição para a afectividade e para a afeição, com a dose certa de atenção – diria -, aconchegantes, que nos iluminam a alma, bombeiam o coração e que nos permitem sentir as atracções e contracções da (“restante”) vida, simplesmente acontecem e não se sentem. Evidentemente que em alguns estágios, momentos ou enquadramentos deste percurso, ainda bem que existem períodos com “danos” colaterais e que podem ser definidores e reveladores, alguns dos quais realmente sintomáticos. Muitos deles genuinamente bons, mas esses, seguramente, ficam só por breves momentos, estão sempre, apenas, de passagem.

Com a herança que o tempo, esse sim, o tal que foi e já não volta, vai deixando, encantando de mais experiência e alguma sapiência, espera-se que, em parceria com a lucidez, ajude a equilibrar a transformação hormonal e o envelhecimento celular. Efectivamente essas, que nos permitem sentirmo-nos bem, mantendo a importante capacidade de “amor-próprio” para que a vida, também, contemplativa, aconteça, essencialmente com sintomatologia.

Em jeito de prazer “final”, ou, porque não dizê-lo, “final feliz” e sugestionado por um estadista do século passado, resta-me partilhar a constatação, ou meramente uma prosaica reflexão, de que “o amor é a coisa mais simples das coisas mais complicadas”. E, já agora, com audácia e direito a segunda oportunidade, Rita Lee, em “Amor e sexo”, entoava; “Amor é isso”.

Vamos respirando e o amor assim acontece.

Garcia
Anónimo Inveterado

(escrita de acordo com a antiga ortografia)

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