Da banalidade do bem

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Apanhados desprevenidos na azáfama quotidiana do que julgamos serem tempos sem as estórias trágicas que nos habituámos a ler em compêndios históricos ou em narrativas que escutávamos incrédulos da boca de antepassados que sobreviveram a tragédias que pensámos encerradas em capítulos irrepetíveis, porque superados pelo engenho do homem moderno em manada, de quem pensávamos ser culminante exemplo acabado.

Percebemos rapidamente a periclitância de tudo quanto demos por adquirido, das prateleiras repletas de papel higiénico nos supermercados, ao ordenado garantido na conta ao fim do mês, sem esquecer a benevolência dos mercados, a força da autoridade, a liberdade de movimentos ou a necessidade de sindicatos e de patrões. 

Até ao surgimento de um vírus mortífero que nos confinou em casa, de cuja varanda torcemos pelos médicos e enfermeiros que nas trincheiras hospitalares lutam pela sobrevivência dos nossos velhos e frágeis, como se de uma vitória num qualquer campeonato se tratasse, enquanto suplicamos ao Sol por vitamina d e pelo fim da súbita distopia em que nos vimos enredados.

Quando pudermos finalmente parar de analisar números, curvas e contracurvas de gráficos de mortos, salvos e moribundos, esperançosamente, porque a esperança não sucumbe jamais e resiste a cargas virais inimagináveis até ao momento em que lhes resiste, o rescaldo da luta universal contra o microscópico bicho que paralisou o mundo, a economia, as ideologias e os até então imperativos categóricos de tudo e um par de botas, será então possível.

Talvez traga gravado no imaginário coletivo a necessidade imperativa de resposta à inversão da questão que ocupou Arendt depois da grande tragédia do século passado: podemos praticar o bem sem sermos bondosos? Resistiremos, prevaleceremos, evoluiremos, por imperativo de sobrevivência e/ou revelação instintiva da natureza humana?

Diremos então, vencido o estado de terror absolutamente excecional, que o amor foi capaz de uma presença omnipresente, ainda que desconfiemos que apareceu convenientemente sob mero disfarce do bem?

A principal causa dessa perplexidade residirá na constatação da realidade que, embora os atos do bem possam transformar-se em monumentais realizações humanas, os autores individuais dessas ações foram muitas vezes marcados com a mundanidade absoluta que a mesquinhez utilitária não pode ocultar e não com a grandiosidade divina com que os seus atos ajudaram o bem  a prevalecer.

Seremos então capazes do bem por essência, logo criadores divinos, émulos consagrados do amor que só com a tragédia se tornou finalmente banal.

Daniel Filipe Martins

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