Navios na Cidade

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O que têm em comum um navio, uma prisão, um convento, um campo de concentração e uma caserna? Os cinco são o que sociologicamente se conhece por instituição total.

Segundo o Sociólogo Erving Goffman, trata-se de um lugar onde os indivíduos estão fechados 24 horas por dia, 7 dias por semana, com o mesmo conjunto de pessoas, por período de tempo considerável. São sociedades monorole, ou seja, sociedades onde um indivíduo tem o mesmo papel em relação aos outros durante todo o tempo.

Fora das instituições totais, repartimos o nosso tempo entre diferentes roles, segundo a atividade e as pessoas com quem estivermos: por exemplo, segundo o momento do dia eu posso ser mãe, escritora, amiga, professora, cliente, desportista, prima, etc… Num navio, o cozinheiro é sempre o cozinheiro, numa prisão um preso é sempre um preso.

Para a saúde psicológica de uma pessoa é bom desempenhar diferentes papéis no nosso quotidiano, para que todas as facetas da nossa personalidade possam ser reveladas normalmente. Os navios têm uma peculiaridade acrescentada: o número reduzido de pessoas. Com a crescente automação do mundo marítimo, as tripulações são cada vez mais reduzidas; hoje é possível encontrar apenas 12 tripulantes a trabalhar num navio de carga de 200 metros de comprimento.

O cativeiro e o isolamento das instituições totais podem conduzir às seguintes consequências psicológicas: transtornos no comportamento social, transtornos cognitivos, transtornos de personalidade, transtornos de comunicação, riscos picopatológicos, ansiedade, stress, depressão, crise emocional, transtornos afetivos, externalização do locus de controle, introversão, perda da objetividade ou até tankeritis, uma doença psicológica exclusiva dos navios, na qual os afetados sofrem de alucinações e perdem a noção da realidade.

Agora que o país está em estado de emergência devido à pandemia da Covid-19, os cidadãos estão a experimentar nas suas casas o que é viver numa instituição total, e na maioria dos casos, com menos indivíduos que num navio. A vida dentro destes microcosmos sociais vai ter sem dúvida repercussões na saúde mental das pessoas, especialmente daquelas que estejam totalmente sozinhas.

De todas as necessidades do ser humano, há duas essenciais para o equilíbrio emocional, que são o contacto com outras pessoas e passar tempo ao ar livre no meio da natureza. Durante milénios fomos nómadas gregários, e ainda que a tecnologia nos permita outras vias de comunicação a distância, nenhuma substitui um bom abraço. O recolhimento domiciliário obrigatório para controlar a pandemia provocada pelo coronavírus é um campo de cultivo para os transtornos psicológicos, e não só os que afetam os indivíduos que se encontram em instituições totais, como também algumas fobias específicas relacionadas com a situação atual.

Como a agorafobia, que é o medo a estar em sítios públicos com muita gente; a afefobia, que é o medo do contacto físico e a bacterofobia, que é o medo dos vírus e as bactérias. Penso que as psicopatologias que se desenvolveram (ou piorarão com mais probabilidade) são a hipocondria, o transtorno de ansiedade generalizada (TAG), o transtorno obsessivo compulsivo (TOC), e os ataques de pânico.

Este artigo não pretende assustar ninguém, nem ser apocalítico, mas é importante que se tome consciência para prevenirmos ou tratarmos destas possíveis situações atempadamente. Por sorte, nos nossos pequenos navios de concreto temos muitas ferramentas para nos entretermos: Wi-Fi, 4G, Netflix, UberEats e desde hoje… a Mordaz, a primeira revista digital nascida nos tempos do Coronavírus.

Olga Delgado Ortega (Doutora em Ciências Sociais; Professora e Coach assistida por cavalos)

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