Campos de Esperança

Sinto-me de pé, parado às portas do Saara. A brisa é quente, suportável, mas mesmo assim seca os lábios. Quero falar, mas não consigo. Tenho de ter coragem para esta travessia. Todos temos, mas neste momento estou quase sozinho.

Mentira. Sou um exagerado. Não estou às portas do Saara e muito menos sozinho. Era, e é, impossível fazer uma travessia desta natureza sozinho. No Alentejo ninguém vive ou morre sozinho. Vive-se e morre-se vizinho. Vizinho de alguém. A solidão, apesar da vastidão, não é opção. Até rima não é? Rima com prima ou com primo. Somos todos primos. Primamos por ser primos.

Este Alentejo de que vos falo é um Alentejo interior profundo. Outrora abandonado, mas nunca mal amado. Esquecido talvez. Quem tem sonhos próprios e os faz nascer nesta planície vive na corda bamba. No fio da navalha. A voar num trapézio sem rede. Quiçá sobre um ninho de cucos. Nunca é fácil, mas costuma dizer-se que, se fosse, não era para nós.

Acreditamos nisso. E trabalhamos para acreditar nisso.
Nesta dificuldade acrescida, com a qual por estes dias nos deparamos, vamos sempre contar com os outros, para o que se espera ser uma longa travessia. Com os primos e com o resto da família. Levamos mantimentos e principalmente muita esperança engarrafada para o fazer. A travessia será árdua. Mas vamos de certeza chegar ao próximo Campo mais fortes e mais animados para continuar.

Não seremos os primeiros. Seremos os próximos a fazê-lo.

Martinho Pereira (proprietário do restaurante Campo do Caroço, em Albernoa.)

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