Com a língua (por uma maior aproximação social oral)

É dos livros a técnica de primeiro dominar a linguagem, ou pelo menos o discurso, para depois dominar a sociedade. Ou seja, com a língua ganham-se (r)evoluções.

Qualquer uma de nós sabe que, por mais giro que ele seja, se abre a boca e só sai disparate, fede ou sai de timbre… será sol de pouca dura. Pelo contrário, aquele tipo banal que quando fala nos captura a imaginação, pode até demorar uns meses a ser apresentado às amigas, mas já conhece o nosso edredon.

Vem isto a propósito do carácter táctil da nossa cultura, sempre aos abraços e beijinhos. Mas também aqui o coronavírus vai trazer alterações. Roubados do toque pelo vírus, resta-nos a língua. E esta, ao contrário do que se pensa, é muito mais livre!

Sim, já sabíamos que nisto as mulheres são digitais e os homens manuais. Enquanto um ligeiro toque nos derrete ou enregele, eles precisam de umas boas palmadas. Nós, que precisamos sempre de beijar, tocar, abraçar todos os amigos e conhecidos com que nos cruzamos na rua, nós que evitamos cruzar o olhar com desconhecidos, nós que, se por acaso o olhar se cruza, logo o baixamos ou, numa petulante atitude, o desviamos, como vamos sobreviver num mundo pós-COVID? Num mundo sem beijos nem abraços? Mais uma vez: com a língua.

É tempo de deixarmos de ser um povo bicho-do-mato armado em hospitaleiro. Isto de andar aos beijos a uns poucos e ignorar todos os restantes deve acabar. O imposto distanciamento social – dos beijos e abraços – far-nos-á recuperar a oralidade. O bom dia, o como está, e até mesmo o singelo olá. Se e quando o quisermos apimentar haverá espaço para um sorriso. Se o quisermos moderar, devolvendo-o ao silêncio, duvido que ele não se revolte e saia na mesma, ainda que mudo, como um mimo acena a cabeça.

Será vénia? Será simpatia? Indiferença não será certamente e o olhar não se afasta assim. Contraintuitivamente, seja pela imposta irmandade da quarentena, seja pela redescoberta da proximidade humana, teremos a desculpa de, fechados os corpos, termos soltado as línguas, ao telemóvel, por whatsapp ou com emojis. Voltamos a descobrir o prazer do oral. E não o vamos querer perder.

Também contraintuitivamente, essa oralidade é mais livre, não causa o embaraço de abraçar um estranho. Vai passar a ser possível dizer olá a com quem nos cruzamos. Não será um convite, uma provocação ou um piropo. Será apenas uma celebração de liberdade, de dizer “estou aqui” e vejo que também “estás aqui”. Será voltarmos a ser parte, será voltarmos a ser todo(s). Todos partes de um todo que se relaciona, livre, com a língua.

Vamos passar a dizer “olá”!

Rita Pato

(A autora não escreve segundo o acordo otográfico, mas às vezes esquece-se e lá vai fato consumado)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *