EDITORIAL | Inside Job

Uma boa parte de nós já vivia quando se deu o fim do império colonial.
Lá em casa, sem saudades do que nunca tivemos, lembro-me dos primeiros anos de criança, de mãos dadas com a esperança num novo futuro. Que daquela vez é que seria, havia liberdade, consumo – e por isso, mais prazer – estavam escancaradas as portas do progresso e do mundo. Começámos de novo a pensar assim com a adesão à União Europeia, mas isto fica para depois. Com as quedas do muro de Berlim e da Cortina de Ferro já fui eu a pensar o mesmo. Depois da primeira guerra do Golfo, do 11 de Setembro e de Barack Obama, também nos remetemos à esperança de um mundo melhor. Mas a porta passou a janela e esta a postigo, postigo que se vai fechando. Vamos ficando sem luz.
Tudo o que vivemos a seguir a cada momento marcante conduziu-nos sempre a um tardio ponto de reflexão. Anos depois, fizemos o trackback ao instante em que podíamos e tínhamos a obrigação de ter feito melhor com a oportunidade concedida. Arrependemo-nos sempre mais do que não fizemos.

Chegou mais um desses momentos, talvez o maior. E estamos agora no que toda a gente sabe, sem nada sabermos, fechados em casa, com dois inimigos invisíveis. Um que está lá fora e se chama COVID-19 e outro que está cá dentro e se chama desinformação, verdades antigas, mentiras e lixo – é um nome comprido, porque se trata de um novelo. Dispomos do tempo, dos meios e temos a urgente necessidade evidente de alterar, para melhor, o rumo das nossas vidas. O que falta então, ajuda? Sem pessimismo, acredito que não vamos beneficiar de qualquer ação salvadora. E que a melhor ajuda que poderemos ter já lá está, no silêncio dos nossos pensamentos e, como diz o meu pai, “na ponta dos nossos braços”. Por outro lado duvido sinceramente que estar em casa, sem nada fazer, sirva para algo mais do que salvarmos o couro por agora. Vivemos numa alegoria de caverna, tudo lá fora já está diferente.

Na Mordaz demos forma à ideia de uma publicação criada em quarentena, para combatermos também o laxismo. O que está escrito nesta revista são opiniões que correspondem às interpretações baseadas no que os seus autores sentem e, por isso, não há nem haverá nada mais real que a verdade de cada um. Quisemos apenas que as pessoas envolvidas na Mordaz fossem capazes de sustentar as suas opiniões, independentemente do seu quadrante político ou religioso, grau tecnológico ou financeiro.
O leitor que feche o seu circuito de comunicação.

Ao Covid: para mal dos teus pecados, somos o início do teu fim.

Francisco Segurado Silva