A Demissão de Deus

Deus pode ter pretensões a ser eterno, mas envelhece como todos nós. E dorme e distrai-se cada vez mais. Tenho-o como um bocado preguiçoso. Fez o mundo em seis dias e depois descansou, o que não abona nada a favor da
sua aplicação.

No fundo, foi o primeiro a inventar a semana inglesa e
não havia Inglaterra. Na minha opinião, não descansou:
desistiu. Deixou-nos este mundo incompleto cheio de
gente imperfeita. Esteve-se nas tintas.

Neste tempo maligno, Deus dorme. De nada vale gritarmos-
lhe: «Ei! Deus! Acorda! Vem cá abaixo resolver esta
merda!». Ressona e a Terra treme. A única resposta que
nos dá é o espirro do Papa, que como todos sabem é
uma espécie de mordomo, mas vestido de branco.

Alberto Caeiro teve um amigo menino que lhe contava tudo
sobre esse Padre Eterno que ronqueja: «Diz-me muito
mal de Deus/Diz que ele é um velho estúpido e doente/
Sempre a escarrar para o chão/E a dizer indecências…»
Pois… o Caeiro já sabia há muitos anos que tudo no
céu é estúpido como a Igreja Católica. E que Deus não
percebe nada das coisas que criou. «Ele diz, por exemplo,
que os seres cantam a sua glória/Mas os seres não
cantam nada/Se cantassem seriam cantores».

O menino do Caeiro cansa-se de dizer mal de Deus e adormece nos seus braços e ele leva-o ao colo para casa.
Eu não me canso de dizer mal de Deus porque tenho
tanta gente para pegar ao colo e não posso.
Olho as ruas e estão vazias. Que diabo te deu na cabeça
para fazeres esta merda, seu velho estúpido e ignorante?
Até que ponto os teus caminhos ínvios são assim
tão perversos?

Acorda, deus! Seu deus em letras minúsculas. Se queres
ganhar direito a maiúsculas, devolve-me todos os
abraços que tenho aqui a estragarem-se nos braços
porque não me deixas tocar em ninguém. Obrigaste-nos a fazer um intervalo na ternura? Decidiste
que o amor voltará a ser à distância como antes do
pecado original? Ou não passas de um velho que dorme e se esquece, no qual ninguém as igrejas, agora fechadas, podem confiar?

Acorda! Acorda depressa e faz alguma coisa!
Exijo-te que me devolvas o direito de beijar a testa dos
meus pais e andar pelas ruas de mão dada com a mulher
que amo.

Se não consegues fazer sequer um suave milagre como
esse, demite-te de ser Deus e deixa que alguém competente
tome o teu lugar. Dentro da tua eternidade não devia haver lugar para a cobardia. Acuso-te! Tu que desataste a matar-nos todos pelas costas, à traição, e consegues dormir sem consciência.

Para teu castigo, encontrarei algures o Deus que falta,
humano e natural, um divino que saiba brincar. «E assim
vamos os três pelo caminho que houver/Saltando e
cantando e rindo/E gozando o nosso segredo comum/
Que é saber por toda a parte/Que não há mistério no
mundo/E que tudo vale a pena».

Olhando as ruas vazias desisti de ti. Não vales o esforço
de um parágrafo.

Afonso de Melo

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